quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Humaninhos

Por Eduardo Galeano

Darwin nos informou que somos primos dos macacacos, e não dos anjos. Depois, ficamos sabendo que vínhamos da selva africana e que nenhuma cegonha nos tinha trazido de Paris. E não faz muito ficamos sabendo que nossos genes são quase igualzinhos aos genes dos ratos.

Já não sabemos se somos obras-primas de Deus ou piadas do Diabo. Nós, os humaninhos:os exterminadores de tudo.
os caçadores do próximo,
os criadores da bomba atômica,
da bomba de hidrogênio e da bomba de nêutrons, que é a mais saudável de todas porque liquida as pessoas, mas deixa as coisas intactas,
os únicos animais que vivem ao serviço das máquinas que inventam,
os únicos que devoram sua casa,
os únicos que envenenam a água que lhes dá de beber e a terra que lhes dá de comer,
os únicos capazes de se alugar ou se vender e de alugar ou vender seus semelhantes,
os únicos que matam por prazer,
os únicos que torturam,
os únicos que violam,

E também

os únicos que riem,
os únicos que sonham acordados,
os que fazem seda da baba dos vermes,
os que convertem o lixo em beleza,
os que descobrem as cores que o arco-íris desconhece,
os que dão novas músicas às vozes do mundo e criam palavras,
para que não sejam mudas
nem a realidade nem sua memória.

Fonte: Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2008. p. 211-212.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Sexo "artístico"

Contardo Callegaris

- No cinema, o sexo é um bailado de corpos que se exercitam, com luz e música apropriadas -

COM FREQÜÊNCIA (crescente?), o sexo, no cinema, consiste em cenas intermináveis nas quais fragmentos de corpos, enquadrados de maneira que não se sabe mais se são nádegas ou seios, movimentam-se numa luz suave e com uma trilha sonora que é uma espécie de Galvão Bueno da "transa" -só que mais previsível que o apresentador global.

Talvez se trate de um efeito da censura ou da autocensura: o disfarce "artístico" vale como pretexto para que a gente se autorize a mostrar coisas que, sem isso, pareceriam proibidas.

O fato é que, em geral, esse sexo "artístico" me causa um mal-estar.

De repente, passo a contemplar (no escuro) a ponta de meu sapato, como um adolescente que estivesse na companhia dos pais. Mas não é por pudor infantil: no cinema, uma cena de sexo que seja pornográfica ou simplesmente realista não me causa mal-estar algum, e, quer eu goste ou não, sigo olhando para a tela.

De onde vem, então, minha dificuldade com o sexo "artístico"?Uma amiga gostava de um homem bonito e "sarado". Quando se deitaram juntos pela primeira vez, havia um grande espelho ao lado da cama.

No meio das escaramuças, o homem olhava insistentemente para o espelho. Minha amiga pensou que ele devia achar excitante a visão dos dois corpos nos gestos do amor, mas logo ela notou que o homem não parava de flexionar seus tríceps verificando, no espelho, a definição de seus músculos. Minha amiga perdeu o entusiasmo; esperou, educadamente, que a transa acabasse e nunca mais encontrou o homem.

"O que foi?", perguntei, "você ficou com ciúmes dos olhares apaixonados que ele reservava para seu próprio corpo?". "Não", respondeu minha amiga, "só fiquei com a sensação de que a gente estava na academia. E aí perdi o embalo".

Pois bem, no cinema, as representações "artísticas" do sexo me fazem um efeito parecido: é como se o descontrole do corpo erótico (que, claro, concordo, pode ser obsceno) fosse substituído quer seja por um bailado de corpos higienistas que se exercitam, quer seja por uma câmara lenta de músculos e pele, que parece ambicionar o estatuto de obra de arte abstrata.

Em suma, no estereótipo cinematográfico, o sexo parece mais estético, saudável e pretensamente poético do que extático.

Ora, o sexo não é nada disso, e torná-lo "artístico" não é apenas um jeito de representá-lo, é também um jeito de domesticá-lo, de regrá-lo.

Acaba de ser publicado em português mais um seminário de Michel Foucault, o de 1978-79, "Nascimento da Biopolítica" (Martins Fontes).

Talvez seja a única ocasião em que Foucault analisou diretamente o poder do Estado no mundo contemporâneo. Como sempre, Foucault é genial: ele aponta o ideal do Estado contemporâneo na "frugalidade" (ou seja, no menor governo possível), enquanto o exercício do poder é delegado a mecanismos que triunfam por seu caráter aparentemente natural e incontestável. Exemplo fundamental: o Mercado, que, sem intervenções externas, produziria os preços e os custos "verdadeiros" -só pelo livre jogo dos agentes econômicos. Em outras palavras, no exercício do poder moderno, não é preciso mandar: basta mostrar a "naturalidade" do óbvio.

O seminário termina antes que Foucault consiga tratar propriamente do poder na gestão da vida cotidiana, mas entende-se que ele funciona da mesma forma, graças a reguladores implícitos, que se impõem por sua suposta e "óbvia" naturalidade. Por exemplo, quem negará que a vida saudável, a harmonia e a higiênica limpeza são valores "naturalmente" benéficos?

Então por que seríamos reféns da "feiúra" da concupiscência, quando é possível (como sugerem as cenas artístico-eróticas do cinema) viver orgasmos lindos e simultâneos, quem sabe ritmados pelo coro da "Nona Sinfonia" de Beethoven?

Sem contar que, com luz e música certas, também parece óbvio que o sexo possa espontânea e naturalmente conviver com o amor. Não é?

P.S. A vantagem do teatro sobre o cinema é que, no teatro, a estetização sanitarista do sexo é mais difícil, pela presença física do corpo dos atores e pela falta de enquadramentos parciais. Como contraponto ao sexo "artístico", freqüente no cinema, quem estiver em São Paulo ou passar por aqui pode assistir a uma peça: "Pornografia Barata", de Mauricio Peroni de Castro, em cena no Espaço dos Satyros (às 21h nas sextas e sábados até o fim de agosto, depois disso à meia-noite).

ccalligari@uol.com.br

Retirado de Folha de São Paulo Ilustrada (14.08.08), disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1408200828.htm

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Lista Suja e STF

Todos sabem do "quebra pau" em relação a chamada "lista suja dos políticos". O quiprocó jurídico tornou-se a ADPF (Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 144. Estou a repassar o voto do Min. Eros Grau (http://www.stf.gov.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF144EGrau.pdf), que é digno de leitura e reflexão. Novamente, o Ministro retoma suas aporias àqueles que, sob o prefixo pós ou neo, estimem ter superpoderes constitucionais. É preciso ter muita cautela (sorge) ao estabelecermos uma crítica à legalidade.


Em que pese toda a nossa ânsia de revanche e desejo de ver determinados políticos fora do páreo eleitoral, nada justifica atropelarmos garantias proporcionadas somente pelo regime democrático. A democracia pressupõe a atenção aos procedimentos judiciais (devido processo legal) e, mais, o respeito aos direitos fundamentais. Dentre esses direitos, encontra-se a presunção de inocência.


Foi pela democracia, que muitos perderam a vida em um regime ditatorial, no qual havia julgamento sumário, sem qualquer respeito às garantias fundamentais. Não precisamos utilizar dos mesmos instrumentos deste tipo de regime para fazer um levante ético na política brasileira. Precisamos, acima de tudo, respeitar a democracia.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Vira-te Ataliba! Política pública do cacete(te)

Ataliba era um personagem utilizado pelo sistema de bibliotecas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), para conscientizar nossos queridos universitários de que não é legal destruir os livros das bibliotecas. Ironicamente eram colados adesivos nos livros com o seguinte dizer: Te liga (sic), Ataliba! Considerando o post anterior, concluí que Ataliba poderia ser muito bem candidato a Prefeito, como diz a música da banda Bidê ou Balde: e porque não?

Pois é, viver na capital dos pampas é um aprendizado diário, principalmente, em termos de concretização de políticas públicas e queria aproveitar o pífio espaço da comunicação imediata para chamar a atenção dos Atalibas. Por exemplo, as políticas públicas voltadas a assegurar o direito à moradia, garantido por trocentos tratados, convenções, cartas de direitos humanos, além, é claro, da querida Constituição Federal Brasuca de 1988. Para tanto basta caminhar pelo centro de POA, no qual comecei a notar algumas formas de efetivar tal direito. Diga-se de passagem, o poder público é muito criativo. Afinal, há um padrão estético da urbanização moderna e nele não estão incluídas pessoas vivendo embaixo das pontes e viadutos, lógico... Pergunta: O que deve ser feitos com os (sub)cidadãos? Resposta do poder público: Ora amigos, basta fecharmos os espaços que podem ser ocupados por esses vagabundos.

Isso mesmo, surpresos? Esta é a solução, fechar espaços que poderiam ser ocupados por aqueles que não têm moradia. Há outra interessante, colocar no local onde os sem moradia dormem paralelepípedos dispostos de maneira a tornar mais confortável o sono. Ou seja, impedindo o camarada de dormir ali! Não posso esquecer-me das ocupações no centro, onde prédios abandonados, desabitados, que poderiam servir de moradia aos mais desvalidos, quando são ocupados dão início a uma batalha jurídica sem fim. No intuito de contemporizar o poder público oferece casinhas (umas iguais as outras) em um bairro bem distante, cerceando do direito de viver no centro da cidade! Ainda surpresos? Essa é a forma de se fazer políticas públicas: de pobre se quer distância, se possível muita distância. Para que o diálogo, se podemos adotar o distanciamento ou a ignorância?

E, assim, continua a política de limpeza nos centros das cidades grandes... É a velha política pública do cacete(te) e o surpreendente é que assistimos diuturnamente tais cenas sem fazer nada, como se isso fosse algo tolerável. As eleições avizinham-se. É preciso refletir o que queremos/desejamos no terreno das políticas públicas.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Aberta (oficialmente) a temporada de piadas fracas!

Preparem o seu espírito de chancho... Apressem-se em não retirar as crianças da sala de estar (importando: tv room), afinal, começou oficialmente a campanha para as eleições municipais. Potencializem todo o seu sarcasmo e riso falso, pois assistiremos as piores piadas. Uaca, Uaca, Uaca e tomates neles, essa é para nenhum Muppet Baby colocar defeito. Poxa, se fosse algo federal, não! O nível é baixo mesmo, trata-se das malfadadas e ignóbeis eleições municipais. Isso mesmo, aquela em que seu vizinho poderá pedir o seu voto, ou melhor, o síndico do prédio é candidato.

Afinal, na terrae brasilis também quero a parte que me cabe nesse latifúndio. Esse tal de interesse público, comum, da galera, de todo mundo não está com nada, o negócio é cada um no seu quadrado. Vote em mim! E... Prometo trocar de carro e aparecer muito na coluna social. Aliás, nos idos pós-modernos, eu atenderia o interesse público da seguinte forma: o diário oficial transformar-se-ia na revista “o fuxico” e a na área da educação trocaria os livros de ciência política por livros de auto-ajuda. Já pensou! (re) eleições ad eternum pra mim. Ipi, Ipi, Urra!!!! Na saúde... remédios, soluções mágicas em cápsulas, sim, jogo pra torcida (leia-se eu, eu e eu), nada que umas gramas de soma não solucionem.

Vamos lá, daqui um pouco começam os programas eleitorais gratuitos. Meia-hora diária de stand up gratuita, pena que os executores têm um humor muito negro, sério! Trabalham com o contraste entre a mais conhecida obra de Lewis Carroll e o dia-a-dia, de certa forma é engraçado. Não sei se a proposta dos produtores era entretenimento barato, mas ... Quando aperto o botão da reflexão, estremeço, noto que o stand up não é. As piadas são fracas mesmo e os candidatos mais ainda.

Nesse momento, acomodado na minha poltrona (símbolo do individualismo), coloco a TV no mute e ponho na agulha o LP dos Titãs (cabeça dinossauro) e espero, calmamente, chegar na quinta música. Ufa! ouço: “Sinto no meu corpo/A dor que angustia/A lei ao meu redor/A lei que eu não queria.../Estado Violência/Estado Hipocrisia/A lei não é minha/A lei que eu não queria...”. Entretanto, não importa mais, quando chego ao banheiro e me olho no espelho já estou com um nariz vermelho, sibolizando a abertura da temporada de piadas fracas, boa sorte na escolha!